domingo, 12 de setembro de 2010

O Olho da Boneca






Bordado torto e de cor trocada, cabelo escorrido, boca em vermelho pintada, um nariz esquecido, esquisito é a fita verde sem sentido dando-lhe um feitiço. A fita, posta pela costureira de capa preta, condena a boneca à usar um vestido amarrotado e amarelado que vista assim de lado de todo é calado.
No fundo da caixa de brinquedos a menina de pano não vê outra solução se não olhar por entre as frestas da caixa onde há tempos está. Ao lado a costureira dorme tranquila.
O sol invade o rosto da costureira aos poucos até pegar-lhe por inteiro e despertar. Já é dia e ela nunca diz bom dia.
Não era bruxaria, ela não ria porque apenas tinha o silêncio como companhia.
Desceu a escadaria, nem sabia se hoje sairia.
Tomou o café, voltou para o seu quarto. Seus olhos curiosos corriam por todo o jardim, há muito sem jardineiro, com tanto dinheiro e só o que se via era muita sujeira. O céu combinava com tudo aquilo, cinza e caduco qual tempo que dali esqueceu, passou e não viu
Ouviu um chorar, pensou em ninar, lembrou-se de sua criança na caixa, já sem esperança.
Pegou a boneca, embalou em seus braços pedindo para que se acalmasse e sussurrava que não mais a esqueceria.
O soluço passou.
Um barulho. É o portão, e a vizinha gritando - “Cuide deste jardim, pois já há bichos por aqui!”
Novamente com o desassossego se distraiu e a boneca caiu, desta vez nem sentiu, subiu até a prateleira e lá por dias ficou e o tempo passou finalmente por ali, apenas para empoeira-la. Donde estava podia janelar quando quisesse, e assim fez, viu que a costureira, naqueles dias deslembrada da menina de pano, recuperou o seu jardim. A costureira voltou a cultivar flores e vender por entre os túmulos que era a vizinhança. No fim da rua a boneca avistava todas as tardes a coitada voltar do nada com cesta carregada de rosas pretas já murchas, ninguém se interessava.
A pobre pensou que lá fora fosse encontrar largos sorrisos e sinceros bons dias. Todos se encontravam, cada um em suas casas, sorrindo é claro e ao invés do “bom dia” via sangue que escorria , mas só ela o via.
A boneca desceu a escada, foi até o portão, deu-lhe a mão e a perguntou bem baixinho: - “Me faz um corte novo, mesmo que o tecido seja velho.”

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