segunda-feira, 11 de abril de 2011

"Semblante da Visita"


Antes do café, a moça, distraída como é, visitara a tia. Lá, num balcão perto do armário das louças, no meio da conversa, percebera penas saídas do recipiente. Nada dissera a parenta, pois sabia “não se mexe nos brios em casa alheia”.
Assim que as cordialidades terminaram e o rosto já não mais tão bem esticado e sincero de sua tia voltou à cozinha para terminar o almoço - momento de alívio e remetente ao passado que permitia a entrada dos sobrinhos sem bater na porta, a hora que fosse - deixou-a, ressabiada, abrir o armário do balcão.
Pássaros de olhos fechados e enfileirados, cores frias, muitos deles. O personagem que se abaixou na frente das portas brancas e gastas não conseguia levantar. De supetão fecha o que abriu e senta na cadeira coberta pela mesa da copa.
Sua tia grita ao fundo:
-Fica pro almoço hoje, Marieta?
Com os olhos suplica à toalha estendida em sua frente que criasse vida e fosse até o seu rosto para sufocá-la, não respondendo o grito. O barulho de chinelos se arrastando trazem sua tia de volta até a sala. O tempo pelo barulho se arrastando é o suficiente para que a moça se levante para fingir a vontade de um copo d’ água.
Em meio corpo na porta do corredor, um aspecto cansado repete a pergunta que se satisfaz com um “sim” cortado, quase já ouvido automaticamente pela rotina, que sufoca quem a percebe.
Marieta engasga e pede que a tia volte.
- Espere um minuto, por favor.
Rose como chamava a tia desde pequena, percebe no semblante da visita uma descoberta sombria, leva os olhos a porta que perto dos seus pés está mal fechada e com o puxador quebrado meio de lado. Senta na cadeira que já estava fora do lugar.
Marieta amassa um pedaço de pão que está na pia sem olhar pra ele, contendo as retinas na mulher da mesa. Uma lágrima escorre rápida do olho da figura velha, da tia, dos olhos dela ou ainda da cavidade que sobrara em seu rosto.
A campainha toca. Toca. Toca a fundo a situação, quebrando tudo que estava pronto pra ser dito e nem ao menos se citava.
Entra um senhor caquético coberto por um tecido longo e preto que trazia grande segurança a tia estremecida.
Outro café é servido, desta vez na cozinha, o senhor que entrou por ultimo sentiu mais depressa caindo da cadeira num susto, a mulher adormecera num banco perto do forno a lenha, talvez pra não perceber a chegada. A moça corria se debatendo pelas portas e móveis até chegar à saída que a deixa correr mais e pelas ruas.
Um rapaz a levanta de um tombo. Os olhos dele encontram os dela que se fecham atribuindo peso morto ao corpo caído envolto pelos braços do jovem.

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