quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Porta

A chave emburrou com a fechadura
E disse que não queria entrar.

A maçaneta encasquetou com a guerra
E mudou-se.

Outra Roupa

Deitada no dia
Sentada no chão
Sabida da canseira
E falada nas pessoas
As mãos se empoeiravam.

Atracada com o vento
molhando a chuva
Soprando a voz
Quase já seus avós
Pensava: "A cabeça era seus pés"

O travestido senhor
Desafinara seu olhar
Por que quis.
Algemaram seu depósito.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Cores Primárias

Mariana olha intensamente para a urina que acaba de fazer. O grito da menina se da ensurdecedor. Flavia, sua mãe, corre desesperada até o banheiro. A pequena aponta o vaso com grade espanto. Flavia, sabendo que no dia anterior Mariana havia comido beterraba como se nunca tivesse se alimentado, da uma risada solta, aperta a descarga e arrasta a filha pra escola.
Por estar com os olhos longe da explicação é repreendida.
-'O que eu estava dizendo, mocinha?' Diz a professora com a testa franzida.
-'De cores primárias, como: Vermelho e azul, que misturados se fazem roxo.' Mariana repete a frase apenas decorada.
A dona dos óculos no nariz continua sua aula sem mais palavras de bravisse.
Mariana ainda na palavra Roxo, misturado com o acontecimento de mais cedo da um pulo da cadeira e corre dar um abraço de agradecimento na tutora e sussurra: -'Então quer dizer que misturando o papai e a mamãe, roxo, sai o meu xixi?

domingo, 12 de setembro de 2010

Carmelita



 No dia zero de janeiro do ano zero. Carmelita se maquiava: o tilintar dos olhos em preto a boca e o nariz vermelhos e uma colcheia na bochecha.
Equilibrar a atenção do publico exige muito capricho. Mais ainda quando se trata de fascinar olhos grandiosos como o dos pequenos.
Em cada coxia que passa deixa um pedaço de lembrança que escorria junto com uma lágrima intrometida.

Quando pequena seus olhos eram apagados não tinham recursos para uma só lanterna pra fingir de refletor, sua mãe tentava com velas e músicas, mas o homem bravo apagava e mandava ir dormir. Ele cheira a algo forte, nunca vai dormir e a pequena os ruídos tinha que ouvir.

As pequenas gargalham e aplaudem, todos os pedaços da lona: bolinhas, claves, pernas enormes... Parecem criar vida própria. Depois de plantado o “malabavírus” os palhaços, cansados, casados, quase destroçados se limpam, se vestem, se penteiam, se calçam e voltam para onde o Bom Dia é utopia, pois quem garantiria que vivo estaria, será por isso que ninguém se revoltaria diante da montaria? Carmelita não sabia.

O casamento atropelado, atormentado quando ainda nem maduro foi duro. O homem bravo e a mocinha, sabiam de palavras afiadas, trepadas refinadas e um amor de apunhaladas. A fita vermelha envolve-lhes o pescoço e quando o rosto já colado, corpo exprimido e o veneno escorrido a tesoura os separava com apenas uma navalhada.

A tesoura sabia que a moça não era amada e resolveu que ali não era mais sua morada, agora namorada.

Carmelita tenta a fita cortada como marreca dali pra frente, e percebeu que os anos de sua vida não haviam iniciado novamente, pois apenas mudara a intensidade da chuva de aplausos.

Tira a fita de marreca que passa a ser tecido, tecera-se da vara presa pelo maquinário. Bravo

O Olho da Boneca






Bordado torto e de cor trocada, cabelo escorrido, boca em vermelho pintada, um nariz esquecido, esquisito é a fita verde sem sentido dando-lhe um feitiço. A fita, posta pela costureira de capa preta, condena a boneca à usar um vestido amarrotado e amarelado que vista assim de lado de todo é calado.
No fundo da caixa de brinquedos a menina de pano não vê outra solução se não olhar por entre as frestas da caixa onde há tempos está. Ao lado a costureira dorme tranquila.
O sol invade o rosto da costureira aos poucos até pegar-lhe por inteiro e despertar. Já é dia e ela nunca diz bom dia.
Não era bruxaria, ela não ria porque apenas tinha o silêncio como companhia.
Desceu a escadaria, nem sabia se hoje sairia.
Tomou o café, voltou para o seu quarto. Seus olhos curiosos corriam por todo o jardim, há muito sem jardineiro, com tanto dinheiro e só o que se via era muita sujeira. O céu combinava com tudo aquilo, cinza e caduco qual tempo que dali esqueceu, passou e não viu
Ouviu um chorar, pensou em ninar, lembrou-se de sua criança na caixa, já sem esperança.
Pegou a boneca, embalou em seus braços pedindo para que se acalmasse e sussurrava que não mais a esqueceria.
O soluço passou.
Um barulho. É o portão, e a vizinha gritando - “Cuide deste jardim, pois já há bichos por aqui!”
Novamente com o desassossego se distraiu e a boneca caiu, desta vez nem sentiu, subiu até a prateleira e lá por dias ficou e o tempo passou finalmente por ali, apenas para empoeira-la. Donde estava podia janelar quando quisesse, e assim fez, viu que a costureira, naqueles dias deslembrada da menina de pano, recuperou o seu jardim. A costureira voltou a cultivar flores e vender por entre os túmulos que era a vizinhança. No fim da rua a boneca avistava todas as tardes a coitada voltar do nada com cesta carregada de rosas pretas já murchas, ninguém se interessava.
A pobre pensou que lá fora fosse encontrar largos sorrisos e sinceros bons dias. Todos se encontravam, cada um em suas casas, sorrindo é claro e ao invés do “bom dia” via sangue que escorria , mas só ela o via.
A boneca desceu a escada, foi até o portão, deu-lhe a mão e a perguntou bem baixinho: - “Me faz um corte novo, mesmo que o tecido seja velho.”

quinta-feira, 5 de agosto de 2010


                                                                                  
                                                                 B 

A
S
T
A
V
A
E
N
T
R
A
R
Nas milhões de hipó         teses de o por quê
aquele teatro estar         vazio do que
a nossa c abe       ça cogitou:
aliados      ao nosso
temo r de
ser
crime
levar cultura
a pequena maioria.
A história do cinema, que
hoje como o filme é uma lembrança
muitíssimo vaga na memória das pessoas
que ignoram o fato deste belíssimo
sonho existir em Cinema
Paradiso, numa
sessão
aberta
com
uma
programação
rica para a conversa
que complementava o que
foi visto. Uma situação assistida pela
mesma.Que vergonha da minha época! O pior
é ter que chegar em casa onde assistem
incansavelmente a TV e ouvir um ator ,
trabalhando para uma emissora
riquíssima estando
muito bem
d e
vida” a
falar sobre
a responsabilidade
dos pais na educação sendo
que já deles há muito fora tirada.
Queria que essas minhas palavras fossem
m
o
m
a ampulheta desta época para que no ento em que fossem escorridas para baixo o tempo fosse outro, mas queria que fosse aquela pequenina para que escorresse mais rápido! 

Cantada ou Falada




O meu gole de café tem que ser uma bela xícara tua.
Cale o meu tropé cá dentro, em teu chalé.
Carrega, dança e chama de mulé.
Canta alto, sentado ou calado, pelo menos falado.
Carrega embalando, sambando e sonhando.
Escorrega pra perto, certo e discreto.

Interpreta, mas desperta.

Tua Saudade que é Minha





Saudade tua
Finda nas lágrimas
que não cessam.

Palavra sua
caminha dos rostos
que não secam.

O tecido que embala o contato
no gigante caminhar dos malabares desencontrados.

Sobriedade nua
tranquila pelos cantos
onde dorme esquecida.

O tecido que embala o contato
no gigante caminhar dos malabares desencontrados.

Dignidade crua
requinta os cacos
por onde escorre
o que nos ocorre.

Dedo Iluminado




Menina mulher. Que tamanho em José?

Pega e lava tudo sem perguntar de quem é o chulé.
Onde será que vai para essa menilher?

Ta querendo ser Alice só que no país das armadilhas, pois só cresce.
Ta querendo ser vagalume, agora tem luz nos dedos que refletem, sem medo, através dos olhos.
Ta querendo ser mil, fazendo milhões de migalhas atarracada de maquiagem.
Ta querendo, nada.

Essa danada ta é fazendo!
Vire meche, de novo, crescendo.
Sobe , vira e encanta maltrapilha.
Fala, grita pra quem faz intriga.
E nos aborrece em corrigir Leolpoldina.

Eta menilher da-me um pouco de ti nesta colher.

É Simples, Mas é de Poesia.





As cordas cantam para as que tocam acompanhadas de chaves, jogadas por clavistas.
As cordas seguram os que cantam a dor do pescoço torcido, esquecidos malabaristas.
Acordas pra quem lhe dá corda, mesmo que Bamba.

Há cordas que te amarram e esmagam.
Retire-se pelas portas que te amargam.
Pois as chaves podem estar do outro lado da maçaneta.

Como não há porta?
Não vê que está no picadeiro?
Escutou o ranger da porta?
Viu os lábios e narizes vermelhos?

Objetos voam;
Coisas desaparecem;
Sombras e estátuas tem vida própria;
Crianças endoidecem;
Pais se reconhecem;
Pessoas crescem;

Pode me dizer qual porta ainda não consegue ver?